Habeas Corpus

Antes de tudo, o medo. Aos poucos, a calma. Com o tempo, o pavor de tê-la em casa. Febril, fez meu corpo tremer. Possessiva, tomou meus pensamentos, congelou minhas ações e, lentamente, sufocou-me para levar consigo o meu corpo, agora dela. Sem ar, privado do mar, lacrado na caixa, distante do mundo, longe dos meus, cheio de agonia, inflado da falta, sozinho, sem ar: há outro modo de morrer que não seja vivendo? Só me restava existir: caminhei pelos espaços conhecidos às cegas, sem tateá-los, repetida e ininterruptamente. O tempo antes dela, em casa; com ela, no mesmo lugar; sem ela, também aí. O direito de possuir o meu corpo me foi assaltado com sua invisível doente presença. Contudo, recobrei-o, para assistir às coisas passarem sem poder tocá-las. A vida, ordinária, tornou-se excepcional. Sem habeas corpus, ainda aqui.

Before all else, the fear. Little by little, the calm. Over time, the dread of having her home. Febrile, it made my body tremble. Possessive, she took my thoughts, froze my actions and slowly suffocated me to take my body with her, now hers. Without air, deprived of the sea, sealed in the box, far from the world, far from my own, full of agony, filled with absence, alone, without air: is there any other way to die than by living? I could only exist: I walked through the known spaces blindly, without touching anything, repeatedly and uninterruptedly. The time before her, at home; with her, in the same place; without her, also there. The right to possess my body was assaulted from me with her invisible sickening presence. However, I covered it up, to watch things passing by without being able to touch them. The life, ordinary, has become exceptional. Without habeas corpus, still here.