How many times had I tried to photograph him and failed? His persona was as ethereal as the dissolving dreams at the moment of opening my eyes each morning. I didn’t want to give up. I searched tirelessly for a moment, an angle, a light, a color . . . I searched for any visual element which might transform that subject into something visible. As time stretched out I asked myself if I had really seen him, if he was real, palpable, tangible. So many days told me, ‘No’. So many others, ‘Yes’. The doubt kept pushing me on, but I was tremendously torn between the named but unknown future and the known and recognized past. Or was it the opposite? The past masked by the projection of a future in the uncertainty of disguised memories and remembrances of that face, the lines of which I was unable to make out.


Ever since that clear sunny afternoon with its intense yellow light, I have been determined to follow him. For better or worse, the light has always been present, on some days offering me something to see and on others blinding me completely. The discomfort of trying to see both sides of the same coin at the same time unbalanced and destabilized me. Armed with my mobile I followed his steps, his image, his unknown but necessary face. In the first 40 days of detective work - or who knows if they were not their biblical multiples, since time no longer corresponded to space – I exclusively obtained 0 photographs of him. However, on that Wednesday the 1st of April 2015, I discovered his purchase of a ticket to see the next appearance of a band called The Inaudibles. There welled up in me a profusion of questions and relations between the deafness of musical instruments and the blindness of each one of my 0 photographs.

 

It was 17:17. The show was due to start at 19:00. I lived on the other side, the other side of the coin. I needed to tele-transport myself to the hollow space of that acoustic shell or pierce the rigid metal of the thick walls around me. Fortunately I don’t remember which direction I took nor what action, but there I was sitting in row G, seat 35. I had reached my destination 20 interminable minutes before the beginning of the show and to my despair or delight at the exact moment when I sat down, I saw him come along the same row where I was. I quickly took my mobile out of my pocket and tapped the camera. I thought to myself: It’s now or never. His trajectory seemed interminable and the closer he came the more I shook. In the last 5 minutes he arrived in front of me, took off the hood which covered his head and when I looked at him I saw myself. He didn’t have a face. He was truly anonymous. It was mirror-like. Almost a mutant, he could have been whomever he wished.


Perplexed, I followed him, or rather I followed myself with my eyes. He or I, I could no longer tell, sat down on my right in seat 36. I couldn’t resist and in a tremulous voice I asked if he would take a selfie with me. His immediate acceptance meant I could get the much-wanted photograph. As usual, having tapped on the screen to capture ourselves, I opened the editor and seeing myself duplicated I realized that he was no longer in the picture. I immediately downloaded an app and stained our faces with circles of yellow of the same chromatic order and intense brightness which the sunlight had offered me on that other day. Anonymous to ourselves, I published the picture on my Instagram account, where to this day I update all that reverberates on our story. The show ended and he left. I lost him completely from view. Hence the need to find other anonymities.

Quantas vezes tentei fotografa-lo e não conseguia.  Sua persona era tão etérea quanto a dissolução dos sonhos no momento da abertura dos meus olhos a cada manhã. Não queria desistir. Procurava incansavelmente um momento, um ângulo, uma luz, uma cor... Procurava por quaisquer elementos visuais capazes de transformar aquele sujeito em alguém visível. Na dilatação do tempo me perguntava se eu realmente o via; se ele era real; palpável; tangível. Quantos dias respondia-me não! Tantos outros, sim! A dúvida sempre me impulsionou adiante, mas sentia uma confusão tremenda entre o denominado e desconhecido futuro e o sabido e reconhecido passado. Ou seria o oposto? O passado mascarado na projeção de um futuro, na incerteza da memória e da lembrança disfarçadas com aquele rosto cujas linhas não conseguia enxergar.

 

Desde aquela tarde clara e ensolarada, de uma luz tão amarela e intensa, decidi segui-lo. A luz sempre presente, para o bem e para o mal, em certos dias me oferecia algo a ver e em outros me cegava completamente. O desconforto de tentar enxergar os dois lados da mesma moeda simultaneamente destruíam meu equilíbrio e desordenavam minha estabilidade. Munido com meu telefone celular ia atrás de seus passos, de sua imagem, de sua face incógnita e necessária. Nos primeiros 40 dias de atividade detetivesca, ou sabe-se lá se não eram seus múltiplos bíblicos – já que o tempo não correspondia mais ao espaço –, obtive exclusivamente 0 fotografias dele. Contudo naquela quarta-feira, dia 01 de abri de 2015, descobri a efetivação da sua compra de um ingresso para assistir a mais nova apresentação de uma banda chamada ‘Inaudíveis’. Criou-se em mim uma profusão de questionamentos e relações entre a surdez dos instrumentos musicais e a cegueira de todas as minhas zero fotografias.

 

Eram 17:17h. O espetáculo tinha previsão de início para as 19:00h. Eu habitava do lado oposto, do outro lado da moeda. Precisaria teletransportar-me ao espaço oco daquela concha acústica ou perfurar o metal rígido das paredes espessas ao meu redor. Felizmente não me recordo qual direção tomei, nem qual ação executei, mas lá estava eu, sentado na fileira G, cadeira 35. Alcancei meu destino 20 intermináveis minutos antes do início da apresentação e, para meu desespero ou deleite, no momento exato no qual sentei-me o vi adentrar pela mesma fileira onde eu estava. Rapidamente retirei meu celular do bolso e toquei na câmera fotográfica. Pensava comigo mesmo: se não hoje, jamais! Seu trajeto parecia infindável e quanto mais ele se aproximava mais eu me tremia. Nos últimos 5 minutos ele chegou em minha frente, retirou o capuz que cobria sua cabeça e quando o olhei, vi a mim mesmo! Ele não tinha um rosto. Ele era um verdadeiro anônimo. Sua face era especular. Quase um mutante, poderia ser quem quisesse.

 

Perplexo, seguia-o, ou melhor, seguia a mim mesmo com os olhos. Ele, ou eu, já não mais conseguia distinguir, sentou-se do meu lado direito, na poltrona 36. Não resisti e, com voz titubeante, perguntei se ele poderia fazer uma selfie comigo. Seu aceite imediato tornou possível realizar a fotografia tão desejada. Como de costume, após tocar na tela para capturar-nos, fui ao editor de imagens e, ao ver-me duplicado percebi que ele não estava mais na imagem. Naquele instante baixei um aplicativo e manchei nossas faces com círculos amarelos da mesma ordem cromática e da mesma intensidade de brilho que àquela luz solar me havia oferecido noutro dia. Anônimos de nós mesmos, publiquei a foto em minha conta no Instagram onde até hoje atualizo todas as reverberações sobre nossa história. O show acabou, ele se foi. Perdi-o completamente de vista. Daí a necessidade em encontrar outros anônimos.