Cresci com uma família cujas origens nunca foram claras, assim como também nunca soube definir meu sexo nem meu gênero (os médicos tentaram e me estupraram). Não sou uma pessoa atormentada, apesar de ter motivos de sobra para isso. Sou neurótica! Mas quem não é? Todas as vezes quando estou de frente ao espelho vejo os olhos puxados dos ancestrais do Oriente; os cabelos cheios e crespos dos bisavós africanos; a forma corporal e o tom de pele dos ascendentes árabes; a lembrança (porque me contaram) do nascimento ocorrido no Vale do São Francisco; as cicatrizes da transferência para Ciudad del Leste durante a adolescência para certos tipos de tratamento corporal e, sobretudo, o fato inglório de não poder ver refletido meu verso. Meu cu.

 

Nasci abençoado (o que me menos importa pra mim é o artigo de gênero) com quatro órgãos sexuais essenciais: boca, cu, pau e boceta. Todos perfeitos até aquele dia ao qual chamei ‘Y’, pois essa forquilha permanece como cicatriz após a cirurgia. Nunca compreendi porque não podia falar sobre minhas vontades.

 

Quando crianças, deveríamos ao menos ter o direito de cuidar de nosso próprio corpo. O ‘Y’ tirou meu cu. Hoje não cago. Sinto falta do meu róseo cu. Usava-o muito; fisiológica e sexualmente falando. Sempre soube de sua dupla função: ejetar e injetar.

Meu pai (35) me ensinou os truques da injeção desde os três anos. Depois dele, meu tio (30), irmão de minha mãe, e o pároco local (52). Finalmente o vizinho, que era gago, mas lindo, e por quem sempre tivera certa atração. Naquela idade eu já sabia sentir e, mais do que isso, sabia a exata diferença entre sentir e agir (expressão e ação). Dédalo (18) – como o nomeei – e eu (10) éramos conhecedores do fim de nossa história e, justamente por isso, entregamo-nos infernalmente ao torpor e à ardência de nossos próprios labirintos.

 

A ausência de um ânus para chamar de meu transformou-se em obsessão! Sem cu, procurei tantos outros quantos fossem possíveis encontrar, com a ajuda de Dédalo, que era bastante proativo. Surpresa pela quantidade de ofertas recebidas, resolvi catalogá-los – como histórias distintas e obviamente avulsas – unidos apenas pelo tema, em páginas de um caderno com folhas beges (meu tom de pele), vermelhas (sangue e escatologia) e uma folha rosa (o tom do meu cu).

 

Nas 41 páginas habitam 34 fotografias, pois algumas destas imagens-histórias foram concebidas em página dupla. O despertar para a criação deste relato é a falta do cu. Todas as figuras contam as aventuras infanto-juvenis experimentadas com Dédalo – dos 10 aos 13 anos, aproveitando inclusive a véspera de ‘Y’ (este dia era-me anunciado desde a precoce menarca ocorrida aos 8). Atualmente tenho dúvidas sobre a existência de Dédalo e também acerca do modo como construí este Caderno.

Confundo-me constantemente com a temporalidade horizontal, não sei mais em qual tempo vivo. Apenas uma certeza me cerca: tudo o que vejo é falso!

THE BOOK OF MY ASS
I grew up in a family whose origins were never clear, in the same way as I have never been able to define my sex nor even my gender (doctors who tried raped me). Despite having every reason to be so, I am not tormented. I’m neurotic. But who isn’t? Every time I look in the mirror I see the almond eyes of my oriental ancestors, the full curly hair of my African great-grandparents, the figure and complexion of my Arab forefathers, the memory (so they tell me) of my birth in the São Francisco valley, thescars of the relocation to Ciudad del Leste during my adolescence for some kind of  bodily treatment, and above all the inglorious fact that I cannot see the reflection of my backside. My ass.

 

I was born blessed with the four essential sex organs: mouth, ass, cock and cunt. All of them perfect until the day I call ‘Y’, since a fork-shaped scar is what remains from the surgery. I have never understood why I couldn’t speak of my desires.

 

As children, we should at least have the right to take care of our own bodies. The ‘Y’ took away my ass. Today I don’t shit. I miss my rosy ass. I used it a lot, both physiologically and sexually speaking. I always knew of its double function: ejection and injection. My father, 35, taught me the tricks of injection from the age of three. After him came my mother’s brother, 30, and the local priest, 52. Finally it was a
neighbor, a stutterer but a handsome man, to whom I had always been attracted. At that age I already knew how to feel, but more than that, I knew the exact difference between feeling and acting (expression and action). Dédalo (as I called him) 18, and I, 10, knew how our story would end, and for that very reason we abandoned ourselves infernally to the torpor and the burning of our own labyrinths.


The absence of an anus to call my own transformed itself into an obsession! Without an ass I searched with Dédalo, who was very helpful, for as many others asses as I could find. Surprised by the number of offers received, I decided to catalogue them, as distinct and individual stories united only by the common theme, in the pages of a
notebook with beige (the color of my skin) and red (blood and scatology) pages, and a single pink leaf (the color of my ass).


The 41 pages contain 34 photographs, as some of these picture-stories were intended to be cover two pages. What awoke me to the creation of this report was the lack of an ass. The figures all tell of my juvenile experiences with Dédalo from the ages of 10 to 13, including the day before ‘Y’ (this day had been announced to me ever since my premature menarche at the age of 8). These days I have some doubts about the existence of Dédalo, as well as the manner in which I put this notebook together. I am constantly confused by horizontal temporality, I no longer know in which time I live. A sole certainty surrounds me: Everything I see is false!