Eu-Boneca

Era uma tarde ordinária de uma semana qualquer. O horário? Período matutino, por volta de umas 10 horas. Era o ano de 1990, antes do mês de outubro, portanto davam-me apenas nove anos de idade. Airton Senna ainda estava vivo; Fernando Collor de Melo assume a presidência do Brasil e, de presente, confisca todo o dinheiro existente nas contas-poupança dos brasileiros; onze jovens são mortos e o evento fica conhecido como a Chacina de Acari; meu avô perde todo o seu dinheiro; e eu encontro uma boneca Barbie usada, no banco de cimento da Associação dos Funcionários Municipais de Londrina (AFML). Éramos sócios deste clube porque nosso tio era funcionário público da prefeitura, dando direito à minha família, por meio da figura materna, a frequentar as dependências do mesmo. Era período de férias. Talvez mês de fevereiro (na época eu nem sabia de Iemanjá). Estávamos eu e minha mãe na Associação. Até meus sete anos eu podia entrar no banheiro feminino, desde que sob seus cuidados. Achava bastante engraçado eu ali, baixinho, numa altura cujo horizonte era os órgãos sexuais de todas as mulheres mais velhas, incluindo-se nesta lista as jovens competidoras de natação, com idade superior a quinze anos. Obviamente eu reparava no corte dos pelos pubianos de todas elas, muito mais do que no desenho de seus grandes ou pequenos lábios. As mais jovens, quando não tinham pêlos, possuíam tosa verão e, as mais velhas, mantinham certa protuberância, aparando apenas a chamada ‘virilha’. Isto são apenas lampejos, porque no dia em que encontrei a boneca, eu estava do lado de fora do banheiro, sentado em um comprido banco de cimento, com cerca de oito metros de comprimento. À minha frente ficava a piscina das crianças, ao fundo um pequeno jardim, sem flores, apenas grama e quatro grandes árvores; à esquerda ficava o corredor coberto onde se encontrava a saída das piscinas, a entrada do banheiro feminino, uma mesa pebolin e outra de pingue-pongue; à direita estavam o bar e o salão de festas. O bar possuía uma sinalização vermelha, propaganda de alguma cerveja patrocinadora e, para chegar até ele, onde sempre podia comprar deliciosos salgados, era obrigado a subir quatro longos degraus. Havia também suspiros coloridos. Ao fundo da piscina de crianças existia a rua para tráfego dos carros e, depois da pista, um enorme bosque, lotado de árvores, sob as quais pequenas choupanas para churrasco entre amigos ou família. Era um dia lindo, ensolarado, com luz clara e céu extremamente limpo, quase sem nuvens, bastante intenso de azuis. Cansado de esperar minha mãe sair do banho – pois ali não era um espaço apenas para se limpar do cloro, mas também para colocar o assunto em dia com as amigas do clube, nada de fofocas porque ela nunca foi adepta destes temas, mas sempre gostou de vários dedos de prosa –; fiquei a procurar para onde olhar e o que fazer, quando, ao abaixar meus olhos para lado direto do banco avistei uma boneca completamente nua e solitária; abandonada ao tempo. Eu a olhei e ela retribuiu. Seus cabelos eram louros e muito maltratados, talvez fosse uma boneca com certa idade, mas não importava. Hesitei durante alguns minutos, ou apenas alguns segundos – que para mim duraram horas –, e não a roubei. Salvei-a da imensidão física daquele gigantesco espaço recreativo. Coloquei-a imediatamente dentro de minha mochila (era de uma loja chamada Jack-you). Tremia por dentro menos do que por fora. Meus olhos denunciavam minha atitude, pensava-me errado em fazer aquilo; tinha medo de contar à minha mãe e ser repreendido, ao mesmo tempo em que meu sangue corria mais rápido, mais quente, mais espesso. Suei. Tremi. Sorri. Era errado aos meninos terem bonecas, eu deveria ter e querer carrinhos ou ‘transformers’, jamais uma boneca. Recuperei o fôlego, o equilíbrio, minhas pupilas voltaram ao tamanho normal para um dia tão iluminado e minha boca não mais ficou seca. Sempre quis uma boneca. Não era uma boneca qualquer, era uma Barbie! Não podia ser melhor. No exato momento em que puxava as cordinhas de minha mochila fechando-a, minha mãe se coloca a minha frente. ‘Vamos’, disse ela. A adrenalina novamente tomou conta de mim, eu a olhei profundamente para tentar descobrir se ela notara algo diferente em mim, mas não! Fomos para casa. O caminho de volta era grande, igual ao de ida, mas sempre prazeroso. Passávamos por várias chácaras, numa delas plantavam morangos, noutra legumes e verduras e numa terceira flores. O caminho era de terra vermelha, sendo adequado apenas em dias como esses, pois a chuva fazia da terra, lama. No meio do caminho havia um córrego (cujo nome desconheço até hoje) e, atravessá-lo era uma euforia no bom e no mau sentido, pois existia uma estreita tábua de madeira estendida com cerca de uns cinquenta centímetros de largura. O comprimento eu não lembro, mas sempre achei que fossem quilômetros, porque quando se é criança as dimensões não têm escala. Depois de uma hora e meia de caminhada chegamos em casa. No fim do dia, chamei-a para conversar e contei meu feito. Ela disse: ‘farei um bustiê e uma saia para ela amanhã durante o dia e à noite vamos à casa da Dona Amélia, ela costura roupas para bonecas’. O bustiê era uma tira de Lycra laranja e saia de um tecido grosso preto com botão de pressão. Depois compramos um vestido de festa verde, um vestido de renda branco, e um conjunto de camisa xadrez e saia de algodão azul marinho até o joelho e mais dois pares de sapato, um amarelo e outro rosa. Naquela época as cores e intensidades eram diferentes das de hoje, mas apenas atualmente descobri que naquele momento eu não queria ter uma boneca, eu queria ser uma boneca. Eu-boneca! 

I-doll

It was an ordinary afternoon in any given week. The time? Morning time, about 10 o´clock. The year was 1990, before the month of October, so they would say I was only nine years old. Airton Senna was still alive; Fernando Collor de Melo takes over the presidency of Brazil and, from this, he confiscates all existing money in savings accounts of Brazilians; eleven youngsters are killed and the event is known as the Massacre of Acari; my grandfather loses all his money; and I find a Barbie doll used in the cement bench at the City Employees Association of Londrina (AFML in Portuguese). We were members of this club because our uncle was a civil servant at the city hall, allowing my family, through the mother figure, to attend the same premises. It was vacation. Perhaps the month of February (at the time I did not even know of Yemanja). My mother and I were in the Association. Until seven years old, I could get into the ladies’ room, as long as I was under her care. I found quite funny my being there, very short, in a position whose horizon was the sexual organs of all older women, including the young swimmers over the age of fifteen. Obviously I noticed the pubic hair styles of all of them, much more than the design of their large or small lips. The youngest ones, when they had no hair, possessed a somewhat “summer style” and the oldest women, kept a bulge, trimming it just around their groins. These are just glimpses, for on the day that I found the doll, I was outside the ladies´room, sitting on a long bench of cement, about eight feet long. Ahead of me there was a children's pool, a small garden in the background, without flowers, only grass and four large trees; on the left side,there was a covered corridor where were the exit from the pools, the entrance to the ladies´room, a table for table soccer and another one for table tennis; on the right we could see the bar and the ballroom. The bar had a red sign, advertising some beer sponsor, and to get to it, where I could always buy delicious salty pastries, I had to climb up four long steps. There were also colorful chantilly candies. In the back from the children´s pool there was a street for the traffic of cars and, off the track, a huge forest, full of trees, under which small huts for BBQ with friends or family could be seen. It was a beautiful, sunny day, with clear light and extremely clear sky, almost cloudless, very intense hues of blue. Tired of waiting for my mom to finish her shower - because there it was not a place just to clean from the chlorine, but also to update chats with her friends of the club, no gossip because she had never been keen on those themes, but always liked multiple choices of prose -; I was looking for where to look at and what to do when, while lowering my eyes to the right side of the bench I saw a completely naked and lonely doll; abandoned to time. I looked at it and it looked back at me. It hair was blond and very badly taken care of, maybe it was a doll of a certain age, but isn´t matter. I hesitated for a few minutes, or it´s just a few seconds - which for me lasted hours - and I did not steal it. I saved it from the physical immensity of that gigantic recreational space. Immediately, I placed it inside my backpack (it was from a store called Jack-you). I was trembling inside less than outside. My eyes betrayed my attitude; I thought I was wrong in doing that; I was afraid to tell my mother and to be scolded, while my blood ran faster, warmer, thicker. I sweated. Shivered. Smiled. It was wrong for boys to have dolls, I must have and want to have cars or 'transformers', never a doll. I caught my breath back, my balance, my pupils returned to normal size for such a bright day and my mouth went dry no more. I had always wanted to have a doll. It was not an ordinary doll, it was a Barbie! That could not be better. At the exact moment that I pulled the strings of my backpack closing it, my mom puts in front of me. 'Come on,' she said. Adrenaline took over me again, I looked deeply at her to try to find out if she had noticed anything different about me, but no! We went home. The way back home was long, same as leaving home, but always enjoyable. We passed by several farms, on one of them they planted strawberries, another vegetables and flowers on a third one. The path was made of red ground, being suitable only on days like these, because the rain would turn the ground into mud. Halfway there was a stream (whose name I haven´t known until today) and, to cross it was an euphoria in the good and in the bad senses, as there was a narrow wooden plank extended of about fifty centimeters wide. The length I can´t remember, but I always thought they were miles, because when you're a kid dimensions seem scaleless. After an hour and a half of walking we got home. At the end of the day, I called her to talk and told my accomplishment. She said: 'I will make a top and a skirt for her tomorrow during the day and, at night, we´ll go to “Dona Amélia´s” house, she sews clothes for dolls'. The top was a strip of orange lycra and the skirt was made from some black thick fabric with push buttons. After that we bought a party green dress, a lace white dress, and a set of checked blouse and navy blue cotton skirt to the knee and two more pairs of shoes, one yellow and one pink. At that time the colors and intensities were different from today, but only now I´ve discovered that at that moment I did not want to have a doll, I wanted to be a doll. I-Doll!