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Texto para a exposição ‘Pequenos
divertimentos: Eu vou te amar, abraçar,
apertar, até você ficar em pedacinhos’,
de João Oliveira, realizada na Mouraria
53, Salvador - Ba

O produtor de quimeras

Era um dia fresco; a luz do sol estava endurecida. Entrava violenta pelas frestas da grossa cortina, transformando os objetos nos quais tocava em sombras movediças. Ele estava na cozinha quando ouviu um barulho seco vindo do cômodo ao lado. Ao se virar, percebeu que o gato havia derrubado o vaso de cerâmica oriental no qual cultivava uma jiboia. Surpreso e sem ira, cruzou seu olhar com o do bichano, já no sofá. Moveu sua cabeça da esquerda para a direita com cautela. No centro da sala de estar uma mancha escura de movimentos espasmódicos se confundia junto aos pequenos montes de terra ali espalhados. Hipnotizado por tais oscilações, as “recebeu como recebia a realidade, sem perguntar se eram verdadeiras ou falsas”¹.

As imagens por ele vistas se tornaram virulentas. Tocaram sua pele desde as pupilas estarrecidas; sujaram suas unhas de carne; atiçaram suas papilas foliadas e calciforme. Adentraram-no sem licença. Seu corpo, agora danado, entregou-se ao fazer. Sua entrega é um “dispor no ser”². Não um fazer prático (práxis), advindo da sua condição animal, mas um produzir (poiên³) — o modo de trazer à presença o oculto. Em seus pequenos divertimentos, João repete insistentemente o ato de abrir exemplares de animais plásticos para adicionar à realidade os seus sonhos; para desvelar a dor da existência e o medo do desconhecido em busca de si mesmo, fazendo poesia.

Ao amar, abraçar e apertar até deixar esses animais em pedacinhos, João se afundou nas suas invenções de infância por meio do sonho e da morte, brincando com a aparição e o desaparecimento das coisas e de si. Ao contrário do médico legista, cuja autópsia certifica a causa da falta de vida de um organismo, seu anseio é povoar o espaço com aberturas visuais cujo sentido é o mesmo da poesia, “um sentido sempre por fazer”⁴. Ao olhar para suas gravuras é impossível asseverar a existência de um tigre, um elefante, uma hiena ou um dinossauro — todos eles aí são, mistos como Quimera. Dessarte, “fatos que povoam o espaço e que chegam ao fim quando alguém morre podem maravilhar-nos”⁵, tal qual o faz João, o produtor de quimeras.

¹ Jorge Luis Borges — O fazedor. 2008 (1960).
² Jean-Luc Nancy — Fazer, a poesia. 2013 (1996).
³ Giorgio Agamben — O homem sem conteúdo. 2013 (1974).
⁴ Jean-Luc Nancy — Fazer, a poesia. 2013 (1996).
⁵ Jorge Luis Borges — O fazedor. 2008 (1960).

 © Fábio Gatti

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