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Texto sobre o trabalho da artista
visual Fernanda Magalhães, premiado
pelo Edital de Crítica das Artes da
Fundação Cultural do Estado da
Bahia, em 2011.

O corpo impávido

“O artista busca entrar em contato com sua noção intuitiva dos deuses,
mas, para criar seu trabalho, não pode permanecer nesse domínio
sedutor e incorpóreo. Ele deve voltar ao mundo material para fazer sua
obra. A responsabilidade do artista é equilibrar a comunhão mística com o
trabalho criativo.” Patti Smith

Fernanda Magalhães (1962-), ao elaborar a série A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia (1995), não apenas volta ao mundo material, mas também o ressignifica com sua produção. É o enfrentamento com a materialidade cotidiana o orifício de entrada de suas conceituações e elaborações artísticas. Com seu corpo, sendo gorda, a artista constrói um diálogo tenaz e politizado entre si, o outro como ela e a sociedade ao alimentar-se de imagens pré-existentes em revistas de pornografia cujo conteúdo é, exclusivamente, de fotografias de mulheres gordas. Apropriando-se de outras mulheres gordas, as adiciona a si mesma, em seus autorretratos, para instaurar sua identidade. “O artista consome o mundo em lugar e em nome do espectador” (Bourriaud, 2009, p. 25).

Para tal produção, Fernanda se serve da tesoura, do papel, da cola, dos textos prontos e autorais, dos lápis de cor, da história da arte, da mulher e, principalmente, da gordura desta mulher para estruturar o espaço e dar forma às suas obras. Estes procedimentos, usados desde o século XIX – como nos mostrou a exposição Playing with Pictures: The Art of Victorian Photocollage, realizada em 2010 no The Art Institute of Chicago – e historicamente nomeados como assemblage, papier collé e fotomontagem, não apresentam inovação alguma. Do mesmo modo, o corpo também já serviu inúmeras centenas de vezes como suporte, meio e mesmo obra para os artistas desde as Vanguardas históricas. Assim igualmente o autorretrato fotográfico, já usado desde Hippolyte Bayard e Julia Margareth Cameron, não estabelece vinculação com o novo. Então, onde está a novidade deste trabalho? A resposta é simples e bastante objetiva: na forma e no discurso.

A forma diz respeito à obra em sua inteireza, incluindo o tema; e o discurso é a intelectualização, cada vez mais requerida pela produção contemporânea – fruto da arte moderna –, da linguagem para conformar a obra à sua forma. Interdependentes, forma e discurso se articulam na constituição da novidade e, juntos, fundam o léxico artístico da contemporaneidade. Talvez Rilke (2011, p. 27) esteja, ainda hoje, atualizado: “uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade. É no modo como ela se origina que se encontra seu valor”. Este modo originário é próprio do discurso. A partir da fala, do lugar de ser e estar como sujeito, Fernanda Magalhães elabora uma narrativa bastante politizada sobre as relações do corpo gordo com a sociedade; os ditames desta sociedade para com os sujeitos viventes; as normas e padrões responsáveis pela medicalização do Homem; a culinária; as diferenças entre gordura e magreza; a sexualidade e erotização da mulher gorda; a vergonha e proibição do corpo gordo. Isto é o que torna A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia singular.

“A fotografia é o paradigma de uma relação intrinsecamente equívoca entre o eu e o mundo – sua versão da ideologia do realismo às vezes prescreve um apagamento do eu em favor do mundo, outras vezes autoriza uma atitude agressiva diante do mundo, a qual celebra o eu. Um lado ou outro da relação é sempre redescoberto e defendido” (Sontag, 2004, p. 140). Vemos essa vicissitude em inúmeros trabalhos de artistas contemporâneos como Joel-Peter Witkin, Diane Arbus, Jan Saudek e Terry Richardson, presentes nesta série de fotografias de Fernanda Magalhães. Contudo, estes não se prenderam à ideologia do realismo e, por conseguinte, estão salvos do equívoco originário. Eles não se apagam nem se celebram individualmente; o fazem no jogo da combinação, só existem como eu através do mundo, e só são mundo por meio de si. É uma celebração do misto onde inexistem pólos distintos. “Fotografar, em suma, constitui uma forma de reinventar o real, de extrair o invisível do espelho e de revelá-lo” (Fontcuberta, 2011, p. 45), assim como fez Duane Michals em Ludmilla Tshernina, em 1964.

Em todas as suas formas e com todos os seus discursos, A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia desnuda mais do que simplesmente o corpo da artista: desnuda uma sociedade viciada em padrões e normas ditadas em nome de uma suposta normalidade. Frente à panaceia imposta, Magalhães contesta, armada política e artisticamente, com um corpo nu, gordo, opulente e impávido.

Bibliografia:
RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Trad.: Pedro Süssekind. Porto Alegre: LP&M Pocket, 2011.
FONTCUBERTA, Joan. El beso de Judas. Fotografia e verdad. Barcelona: Gustavo Gili, 2011.
BOURRIAUD, Nicolas. Pós-produção. Como a arte reforma o mundo contemporâneo. Trad.: Denise Bottmann. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
SMITH, Patti. Só Garotos. Trad.: Alexandre Barbosa de Souza. São Paulo: Cia das Letras, 2011.

Link de acesso ao site do Programa de Apoio
à Crítica de Artespublicado pela FUNCEB:

 © Fábio Gatti

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