top of page

Texto sobre o trabalho da artista Alexia Zúñiga por
ocasião de sua exposição individual ‘Dia comum’,
realizada no Instituto Goethe, em Salvador, 2017.

Invisível existente

Entre o nascimento e a morte há incontáveis transformações. Uma delas, comum a todos, é inscrita pela contagem dos anos, marcada na pele através do envelhecimento ou, na cultura de hoje, desenhada pelas técnicas preenchimento e rejuvenescimento. Independentemente da escolha, não há como frear a ação da flecha tempo sobre nós – nem mesmo Benjamin Button conseguiu superar essa direção temporal, ele apenas experimentou-a invertida –, pois ela nos compõe.

Numa sociedade onde estimula-se a manutenção da Síndrome da Branca de Neve, fica difícil definir um lugar no qual uma pessoa velha possa existir. Em geral, pela sua falta de mocidade, e supostamente de disposição e produtividade, prefere-se ignorar tais indivíduos, deixando-os confinados ao seu próprio grupo. A situação é ainda mais problemática quando se pensa num extrato social cuja invisibilidade é marcada não somente pelo etarismo, mas também pelo preconceito de gênero. Apesar da necessidade humana em categorizar os corpos e as pessoas, as preocupações de Alexia e a potência de sua poética se desprendem desses limites oferecidos pelos variados tipos de preconceitos e estudos sobre eles, para discutirem um aspecto essencial: a vida.

Sua busca é direcionada pelo interesse em trazer para diante algo que estava oculto, algo cuja aparência estava mantida fora da luz, algo que, mesmo sendo invisível, é existente. Essa ação de produzir um desvelamento dessas pessoas e de si mesma, configuram o estrato nuclear com o qual sua produção foi requerida e elaborada. Ao perceber a invisibilidade dessas pessoas Alexia se deu conta da sua própria finitude. Encontrou nelas mais de si; mergulhou nas mútuas histórias, sentimentos e experiências de modo a iluminar e tornar transparente suas existências e suas verdades.

O noema visual apresentado em suas imagens convida a adentar num universo plural onde a realidade palpável do mundo se fricciona com a realidade imaginativa da artista e com o qual o documento amplia seu valor histórico-social, apresentando uma ruptura com a fixidez antes articulada pelos modelos teóricos da historiografia e do fotográfico. Seu trabalho, antes de ser um grito pelos direitos sociais, é uma celebração da diversidade da vida em sua dimensão mais íntima e igualitária: nascemos para morrer. Alexia nos exorta sobre a urgência em rever a maneira pela qual se apaga a existência das pessoas ainda vivas. Ao desvela-las todas, suas imagens concentram-se em apresentar um mundo para a existência e para a ação da pessoa.

 © Fábio Gatti

bottom of page