Texto feito por ocasião da exposição
‘[dev]olvido pelo mar’ da artista Lica
Moniz, realizada no Farol da Barra,
Salvador - Ba, em 2008. Também
realizei a expografia dessa mostra.
Do hábito à novidade
“[...] a água, por seus reflexos, duplica o mundo, duplica as coisas.
Duplica também o sonhador, não simplesmente como uma vã imagem,
mas envolvendo-o numa nova experiência onírica.” Gaston Bachelard.
Visto a capacidade da água em duplicar o mundo e as coisas, Lica Moniz, na ausência física da água, mas em sua presença sígnica, duplica sua própria vida e prescreve a duplicidade da existência do homem ao apropriar-se do lixo por este produzido. O lixo é, então, longe de um estandarte em prol de um discurso ecológico ou da crítica aos sistemas de consumo, a matéria tornada viva pela água salgada do mar existente no seu cotidiano e, por conseguinte, elemento integrante da construção de seu hábito em caminhar pela areia da praia diariamente.
No hábito bachelardiano, bem como no da artista, pode-se encontrar um caminho possível à criação, pois ele não é pura repetição, mas sim, instaurador da novidade na rotina. É através de sua aplicação cotidiana que o sujeito pode aperceber-se, usando da imaginação, dos instantes que o conduzem a experimentar o espaço vivido, o tempo presente e, portanto, sua essência. Este ponto dirige o seu discurso, pois é na essência de seu Ser onde ela consegue encontrar a intimidade necessária à atividade criativa e, desse modo, promover a experimentação de um mundo duplicado na originalidade onírica de seus objetos-produtos expostos.
É, exatamente, envolver-nos numa nova experiência onírica, o anseio de Lica Moniz. A partir da coleta sistemática de objetos devolvidos pelo mar, largados pela água densa e salgada nas areias da praia, que o hábito transforma-se em novidade. De uma atividade cotidiana, ordinária e frequente a artista propõe transpassar os limites de uma realidade dura e emerge no efêmero instante de sua existencialidade já duplicada. Da união deste espaço de intimidade e seu reflexo, com a comum e diária caminhada na orla marítima, o trabalho aqui exposto é o resultado possível e inaugural de uma autonomia da obra de arte, pois agora o objeto artístico é, em si, um novo ponto de partida.
Da intimidade à duplicidade, Lica Moniz, munida de singular destreza em revelar-nos a novidade no descartável, propõe ondulações excêntricas oriundas de suas peças de arte que, ao atingir-nos, ressoam, isto é, nos fazem ouvir e, posteriormente, repercutindo em nosso âmago, nos inscreve como sonhadores de sua obra.











