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Texto para o livro Sertão, da fotógrafa Lu Brito, 2021.

A paisagem se molhou

Era final de junho de 1998, e quem mora na Bahia compreende bem a espessura desse período. Quando na adolescência, embora cronologicamente não estivesse tão distante dela, sonhava com o mundo — sem saber que o artigo definido do substantivo de seu sonho seria a primeira grande implosão dos pensamentos levados consigo, tanto os passados quanto os futuros. A juventude define muita coisa da vida adulta e, concomitantemente, fantasia o real. Aliás, desde a infância — e em todos os seus traumas também — o real é sempre inventado. Sem isso, a vida seria árida e não apenas seca. Na aridez, o infértil faz morada. Na secura, o fértil resiste. Dentre tantas definições importantes, uma se apresentou com destaque: o desejo por viajar. Mal sabia que esse seu wanderlust tem uma camada mais profunda. Supôs, desde aquela idade, que o impulso em cruzar fronteiras geográficas era a única força movente de sua constatação. Todavia, apesar de escusa até agora, preexistia um anseio por uma geografia de si cujo anúncio foi dado anos mais tarde, com a participação da fotografia em seu cotidiano. Não obstante tal indicativo tenha ocorrido nos idos de 2005, é somente no agora-presente-já-sucedido que a percepção deflagrou esse terreiro corporal como um receptáculo de imagens.

Com a fotografia incorporada à sua vida diária, procurar pelos lugares fora de si tornou uma tarefa constante e, por isso, também incômoda. À medida em que se aproximava de mundos e gentes plurais se colocava mais dentro de seu corpo, mas não menos distante de si, como uma desconhecida. Um pouco como acontece com a utopia, esse lugar almejado ao qual nunca se chega, o eu é esse mesmo horizonte inalcançável. Se distancia na mesma medida da aproximação, mas serve para nos fazer caminhar. As paisagens, vistas e fotografadas por Lu Brito são como seu desejo, um duplo: são a verdade de um mundo e a sua própria fabulação (culpa da fotografia cuja invenção nos oferece um jeito de friccionar o real para com ele sonharmos). Creu saber esses mundos com a força dos seus olhos. Creu conhecê-los pela evidência de suas aparências, mas deparou-se com um entendimento mais largo: “o horizonte está nos olhos, não na realidade”. Assim, ao longo de décadas, tem caminhado entre os horizontes físicos das estradas e cidades para as quais retornam e aquele dado pelo seu reflexo nos olhares das centenas de pessoas que atende nesses lugares. Ela foi levada ao Sertão pelos olhos; primeiro como oculista. A ciência a conduziu a recônditos onde muitos ‘doutores’ não quiseram ir, por capricho.

Lu, mulher, médica, negra e fotógrafa enxerga além do estereótipo porque ela própria sabe que “o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos”.

Eles fazem uma história tornar-se a única história.” Aconteceu com o Nordeste. Aconteceu com o sertão. “A relação entre o sertão e a civilização é sempre encarada como excludente. É um espaço visto como repositório de uma cultura folclórica, tradicional […]”. “É assim, pois, que se cria uma única história: mostre um pouco como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão.” Aconteceu também com a fotografia. Sua história foi escrita no masculino e seus discursos padronizaram uma necessidade moderna, a representação da verdade, ainda hoje requerida. Mas se nos lembrarmos que, “às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é data” seria mais prudente tratar a fotografia como um caminho duplo no qual documento e invenção coincidem. O papel da fotografia se molhou e, com ele, a evidência. A história única é árida, estéril, mas obedece a uma estrutura de poder. Já as paisagens de Lu Brito são uma invenção para sair do seco, rumo a uma fertilidade úmida ignorada, a um sertão de exuberâncias além das folclóricas e regionalistas estereotipadas.

No seu sertão, a noite é prenhe de estrelas livres, de constelações cintilantes iguais aos vaga-lumes avoando nas matas. É uma geografia do cheio e do farto, modelada pelas suas águas escuras-pretas-marrons-verdes-brancas. Das cores ao movimento do denso fértil sempre úmido brotou e sobreviveu um verde-fantasia rodeado de criadouros dessas famílias de água. Miolos de vida vindos da sombra, da beira invisível que divide a terra da água, o sonho da alucinação. Represada da mesmidade, a fotografia de Lu Brito explode em fluxos e ritos, do submerso ao aparecido. Suas texturas apontam encontros que o eu desconhece porque a terra é sua dona. Nada é tão frutífero quanto a resistência. Cardumes de vida proliferam seus ninhos, suas casas, seus corpos e estendem seus tentáculos, convivendo entre o natural e o artificial, entre o existente e o construído. Uma sobreposição de planos da realidade desobediente à lógica do real. Uma piscina de sonhos na qual a paisagem se molhou. Era final de junho de 2021.

 © Fábio Gatti

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